imaginação:
 
fazer da mão um coração.
pintar as unhas e colorir a chegada do amor para mim.
calçar uma luva e proteger do frio: a dor que deveras sente.
tatear o universo, tomar choque com as estrelas e rir do rio com mar, sem rio.
lavar a mão, se limpar da emoção, sentir o áspero e o veludo com a palma.
fantasiar o cardíaco se espreguiçando e banhado de vermelho.
fazer de um poema: ridículo – e não se caber dentro dele.
se findar, se findar, se findar, se findar, se findar, sem fim dar.
 
 

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nessa noite de ventania, lua minguante e estrelinhas morrendo,
rezo uma prece ao santo da igreja da minha rua.
ele que nunca me viu ajoelhar no chão da sua casa
conhece o que me angustia e faz das palpitações do meu coração
querer um dia soar como os tambores para todo o mundo.
mesmo sem nunca lhe olhar nos olhos de íris negras
ele me vigia e guarda em todos os caminhos que tenho seguido.
juro um dia visitá-lo no altar e beijar as vestes
pintadas com um pobre pó marrom coberto de verniz.

o guardador de palavras.

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sempre guardei palavras. quando comecei a escrevê-las no primeiro caderno de arame, logo constataram que elas faltavam no que eu queria dizer. em todos meus fins de aula, a professora sempre me chamava no canto da sala, perguntava onde você colocou a palavra que falta aqui, ali e acolá. não sabia o que dizer, então deixava meus graúdos fixos nos miúdos dela, e o tempo se encarregava de cansá-la e me liberar daqueles globos. enquanto a professora investigava onde estava as palavras que faltavam nos textos, me distanciava dela e fugia com as palavras ausentes. quando minha mãe chegava para me buscar na escola, a professora dizia, comeu novamente um bocado de palavras do texto, não consigo compreender boa parte que o texto quer dizer, minha mãe olhava nos meus graúdos com seus graúdos cansados de ver a cena se repetir, e perguntava se eu não havia levado o lanche das dez, afirmava que sim, e ela rebatia indagando o motivo de tanto comer as palavras dos textos. nunca pude revelá-las que não comia as palavras, mas as escondia para fugir com elas […] brincava, me divertia sem sequer levantar da carteira. as palavras que faltavam nos textos eram minhas, e por isso, não as revelava para ninguém […] as perguntas me acompanharam por toda vida, nunca deixei de esconder palavras, nunca deixei de brincar com elas, e as que faltaram, não é que faltaram, mas estavam comigo, noutro plano, me divertindo. cresci escondendo palavras, tirando-as dos textos, colocando-as na sopa da minha vida, no feijão das minhas alegrias, no bife acebolado da minha crença no ser humano, no arroz tropeiro e no macarrão do meu sonho de ser um grande sonhador, tão sonhador que tirei as palavras dos textos para convivê-las noutros lugares. se um dia, eu encontrar por aí, a primeira professora que certificou minha insaciável fome, irei revê-la ao mundo em que guardo todas as palavras que ocultei. sou um guardador de palavras.

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um homem acende o cigarro na beira d’água do oceano.
o mar quando chega
apaga a chama e leva embora a fumaça e o esgoto.
a cidade bloqueada de carros e ônibus
primeiro entope as ruas,
depois as vias pulmonares e a aorta.
o coração não sabe fingi saúde.
(não pulsa mais, lateja como se tivesse pus)
a nicotina perfura e evapora pela boca.
o corpo se planta podre antes de apodrecer.
a terra o rejeita por muito tempo,
o primeiro morotó, não.
as espumas quebram na beira da praia,
não acham o homem e voltam perturbadas para o fundo do oceano.

 

 

 

 

 

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Há neste momento, segundo Ana Paula Caloteira, uma grande revolução no país Salvador. Ana me mandou via WhatsApp uma nota informando que acontece na praça Tomé de Sousa uma guerra a moda soteropolitana: guerra de ovo. Por enquanto, não há número de feridos, só de atingidos, que ainda segundo a bicha caloteira são: Antônio Carlos Magalhães Neto e João Dória, ambos prefeitos: o primeiro do país Salvador e o segundo do País São Paulo. Não há provas dos motivo do atento, só evidências. Mas como Ana Paula Caloteira é uma mulher séria e respeitosa… ela prefere não julgar os agressores, que muitos chamam de heróis, e ela mesmo concorda, e, eu, também. Ana ainda disse que ouviu algum deles dizer em tom alto ao jeito Pablo Vittar: “Vou jogar bem na sua cara…” e jogou. Depois dos primeiros noticiários, todos os carros de ovos fizeram a volta e partiram em sentido à rua Chile-Pelourinho. Os vendedores dizem que são mais de dois milhões de ovos, enquanto a polícia militar informa que são mil e duzentos ovos disponíveis aos revolucionários. O boletim médico dos dois prefeitos não foi autorizado, mas confirmam que os ovos estavam goró e que eles vão precisar por uma lavagem.

Salvador, 07 de agosto de 2017.

 

#joãodória #acmneto #anapaulacaloteira #ovo #prefeito #salvador #sãopaulo

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perfure meu coração
com sua boca vermelha,
e o deixe sangrar na tua saliva morna
beba meu corpo fresco
depois de suar minha potência.
gosto de sentir esses
com olhos enluarados de noite como os teus
perfure meu coração
como o sol amanhece e clareia a escuridão.
infiltre-se nas delicadezas e nas surpresas da minha casa,
rasure meus confortos e permaneça.

na minha pele – Lázaro Ramos.

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na minha pele.jpg

na minha pele – é o mais novo livro do escritor baiano Lázaro Ramos. uma obra muito bonita para acalentar os corações dos brasileiros num tempo difícil em que as oportunidades tem voltado a ser raras e as dificuldades calcificadas. considero o título como uma autobiografia política. o escritor que também é diretor de cinema e um dos mais brilhantes atores brasileiro, conta em um pouco mais de cento e cinquenta  páginas momentos da sua infância numa pequena ilha da Bahia – a ilha do Paty – o caminho que ele traçou até chegar ao lugar em que ele atualmente tem ocupado e suas sensações ao ser um ator negro na sociedade brasileira…

na minha pele – também fala de afeto, da importância das oportunidades, do acolhimento familiar, do olhar sensível sobre as pessoas, principalmente o cuidado com o futuro das crianças. Lázaro cheio de sensibilidade traz em sua obra referências que discutem o negro na sociedade e tenta dialogar com o leitor de perto, numa conversa intimista, olho no olho.

confesso que li o livro rapidamente e senti muita falta da companhia do escritor ao fim do livro. recomendo a obra. é um grande e importante livro que tem a capacidade de nos encorajar e nos fazer seguir nos dias atuais, embora estejamos vivendo um brasil como ‘d’ minúsculo como disse o ator matheus nachtergaele neste início de agosto de 2017….

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origem:  NACIONAL
Editora: Objetiva
Edição:  1
Ano de Edição: 2017
Ano:  2017
Assunto: Biografia – Autobiografia
Idioma: PORTUGUÊS

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nessa noite de ventania, lua minguante e estrelinhas morrendo,
rezo uma prece ao santo da igreja da minha rua.
ele que nunca me viu ajoelhar no chão da sua casa
conhece o que me angustia e faz das palpitações do meu coração
querer um dia soar como os tambores para todo o mundo.
mesmo sem nunca lhe olhar nos olhos de íris negras
ele me vigia e guarda em todos os caminhos que tenho seguido.
juro um dia visitá-lo no altar e beijar as vestes
pintadas com um pobre pó marrom coberto de verniz.

ao são francisco xavier, o santo da minha rua.

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aquele rapaz doce de olhos mornos
e vivos numa pele clara de contornos finos
veio do sul do país para se escrever no meu lugar.
acendi uma vela ao santo casamenteiro para juntar
meu coração cansado de querer com o dele límpido e aberto.
a vida aconteceu em nós dois quando num mesmo minuto
os corpos se respiravam desejando o mesmo refúgio.
aquele rapaz doce de olhos mornos
regressou de onde veio, voltou com a vida suja por mim,
e não importa para onde ele corra, estarei marcado no coração,
nos olhos acendidos com minha chama
e com a carne larga de tanto que estive dentro dela.