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sou um manequim
em atrofias e rigidez.
o bisturi do mundo
me rasgou
para reparafusar
com instrumento dos states.
 
sou um manequim
em atrofias e rigidez,
remendado,
com quarenta porcento
de insensibilidade
no corpo
e três mil e cento e três
de sensibilidade
no peito
que permanece aberto
para alguém entrar.
 
 
sou um manequim
em atrofias e rigidez
que tem escrito
nas costas o realinho
de cinquenta e cinco graus
da escoliose lombar.
 
sou um manequim
em atrofias e rigidez
desde as águas paradas
na barriga do véu
que rasguei para nascer.
 
[atrofias e rigidez; tiago correia]
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amar é um perdido.
o amor é um café sobre a mesa,
mas que só serve quente.
deixo a porta do meu peito aberta, escancarada, mas nem joão, nem henrique, nem letícia, nem ana,
nem ninguém quer entrar.
gente tem medo, gente tem medo.
nascer para morrer sozinho é uma notícia que sempre se repete no meu rádio,
mas que é noticiada como se fosse inédita.
faço cópias de chaves, entrego em lares,
repartições & praças públicas,
envio cartas com endereços desconhecidos,
que invento,
na hora, na boca do correio.
espero ansioso, roendo unhas,
mas ninguém vem, desconfiado (…)
me consolo
criando a certeza de ter errado o CEP.
amar é um perdido
que reconheço desde que nasci.
olho o retrovisor do carro que passa ao lado do ônibus
vejo o reflexo nele, paro, penso,
podíamos construir uma história longa,
mas algumas vezes
é um idoso/a que corre para emergência,
vai morrer.
amor é um perdido.

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sozinho no quarto
o frio essa noite será maior.
sozinho na cama
o calor essa noite será menor.

o corpo do homem
ausente
me faz salgar o Capibaribe

a lua a rua o galo
o amigo da Bahia
a erva a era
a telefonista

ninguém me entende.

a chuva prevista para essa noite
escoará
para dentro d’minha alma.

o corpo desse homem
da fotografia que acaricio
me põe vagabundeando
para dentro do vagão
que corta a avenida

o frevo o tango
o axé o brega
a valsa o arrasta pé

estou dançando no marco zero
zero hora um a zero para a saudade
que aumenta o placar com o dia
com o frio com a chuva com o calor.

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ainda sinto o suor do teu corpo escorrer no meu.
me vejo assistindo o passado
de uma hora atrás
como numa tela de tevê bem grande
no marco zero.
gosto de rever a sua língua no meu pescoço e da sua voz
ofegante dizendo entre saídas e entradas,
que a minha vida é tua.
me vejo perdido
procurando o dono do barco que atracava em mim.
corro toda a margem do rio,
mas nada vejo,
nem aquele trem que de longe avistávamos
deixando fumaça de meia em meia hora.
o capibaribe com o cão sem plumas
sabe que dentro de mim
o que há é uma tempestade
que alaga, não o meu corpo, mas a alma.
no espelho permanece teu recado de batom,
comprar leite e pão, deixe que o café eu mesmo passo.
há três dias requento o que resta do último,
e não ponho açúcar, pois esqueci o paladar.
as lembranças do teu suor não me deixam esquecer
como a gota que brota do teu corpo
escorre
desenhando s’s longos e salgados.

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nutre os pés
de melão, o rio
e fortalece o chão para toda raiz

compôs o som dos mares,
o canto dos pássaros
cada tom de rugir, mugir
e voz

faz chover
faz secar
faz nascer
faz morrer

carrega as águas,
pinta o fim do dia
e faz verão, primavera, outono e inverno.

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olho o mar e o limite
e adoro:
a cor e o encontro
com o céu.

olho dois rapazes cruzando a Lucaia
e imagino os planos,
o casamento para maio e duas famílias
unidas
para assistir a celebração do amor.

olho as nuvens, os passarinhos
e o avião:
plainando sobre a terra e chamando
atenção por onde passam.

olho duas moças de mãos dadas,
sorrindo, contentes,
talvez, sejam irmãs, primas, amigas,
mãe e filha, namoradas, noivas ou esposas

são sempre tantas as possibilidades
entre duas mulheres de mãos dadas.

olho os limites;
e a cidade que cresce para dentro,
invadindo o campo e tirando os bois e os porcos
dos currais.

.
te escrevo
e escondo o papelzinho
numa gaveta.
nunca coloco seu nome.
nem endereço.
qual medo.
o de alguém encontrar
o papelzinho, te levar, e
e um dia eu descobrir
que você sempre disfarçou
sabendo
que dentro deste meu coração
há espaço para você morar.
já o seu.
nem um porão.

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transpiro um suor
por muita dor

olho o mar
na trégua

transpiro um suor
me derramando em lágrimas

enquanto pequenos pássaros azuis
de longe
me dizem bem-te-vi

olho a mata
na trégua

me liberto dos soldados da dor
e sinto
o mar crescer
nas minhas costas.

.

a tarde escure.
as janelas da casa de Deus
se fecham.

o sol se vai.
a lua chega em lança
sorrindo.

os passarinhos se recolhem
para debaixo
das árvores.

o rio corre mais depressa.
o trânsito entra em caos,
trava.

minha coluna
metálica
me belisca.

é noite,
escuridão
e a tempestade de verão.